
Escritor é gente que não sabe amar sem meias medidas. Nem à vez, já agora. São conhecidas as muitas infidelidades de J. P. Sartre. «Não se pode dormir com todas as mulheres do mundo, mas esse esforço deve ser feito», disse-o Jorge Amado. É longa a lista, e é contemporânea esta realidade. Há um autor das Publicações Dom Quixote que está sempre reunido de mulheres. Como um íman, vejo-o trocar copos e sorrisos. Numa entrevista de vida, António Lobo Antunes (outro autor Publicações Dom Quixote) disse a João Céu e Silva que não tinha tido assim tantas mulheres. O interlocutor, que se dispôs a reunir numa longa entrevista o vasto percurso biobibliográfico do autor, colocou uma nota para o leitor que confirma que, na verdade, foram muitas. Não é que de facto, para o vulgar humano, não tivessem sido muitas as mulheres que António Lobo Antunes teve. Por isso nem o escritor estava a mentir, nem o comentário do interlocutor era despropositado. Cada um de nós vê o mundo com o seu olhar e todos nós temos bagagem quando embarcamos. Por isso, e porque António Lobo Antunes não parece ter um problema com a aritmética, o que ali se assistiu foi a diferença de mundo entre um vulgar homem e um (grande) escritor. Se nos comovemos com o que escrevem, é porque o fazem de forma exacerbada e única. E se há autores que precisam de uma musa, na verdade o que eles estão a dizer é que precisam de materializar numa ideia o mundo todo. Todas as mulheres. Uma por uma: as belas, altas, magras, mas também as gordas, as feias, as desajeitadas.
São conhecidas as aventuras amorosas de Lobo Antunes, em que mulheres lhe dão o número de telefone em caligrafia delicada, esperando que sejam uma das eleitas. Algumas, ao que parece muitas, são-no. Não será por isso à toa que muitos convidados acabaram por ser expulsos do local onde o escritor escrevia. Estavam a mais. O autor precisava de amar. Só mais um pouco. Uma amiga do Senhor Palomar fez uma vez uma pergunta ao autor de Manual dos Inquisidores numa sessão pública. A pergunta perdeu-se no vozeirio e nos silêncios da sala. Mas Lobo Antunes não a esqueceu: a ela nem à pergunta. No final, disse-lhe que gostara da pergunta. Estiveram 30 minutos a falar, só os dois. Durante aquele período, a amiga confirma-me que ele passou o tempo todo a olhá-la. Foram apenas 30 minutos da sua vida, mas volta e meia conta-me a história. Again and again. Ela conta sempre isto sem se importar, como se o olhar de António elevasse, ou pelo menos não pesasse. Talvez seja isso.
Claro que existe sempre o outro lado, bem como o machismo latente em cada uma das frases que o Senhor Palomar escreveu até aqui, coisa que o narrador não quer ser acusado pela Senhora Palomar. Ela sabe que não é assim, bem certo, porque já o conhece o suficiente, mas nada como colocar os pontos nos i. Claro que o outro lado o comove (não preocupa). Nem mesmo uma mulher independente e livre como Simone Beauvoir era capaz de lidar, sem sofrer com essa situação, com os muitos amores do Nobel francês. E é claro que tudo isto que foi dito nos primeiros parágrafos desculpabiliza uma série de choros e tristezas. Houve vidas decepadas e rotinas destruídas, que acabaram na caixa de urgências. Houve quem nunca mais dali saísse. Mas isso dá-se apenas porque ainda não percebemos que escritor é um bicho. É um bicho com mais ventrículos e aurículas que o vulgar homem. Escritor acha que ali caberá, sempre, todo o mundo. E o mais provável é que caiba mesmo.
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