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Domingo, 15 de Novembro de 2009

Escritor é gente que não sabe amar sem meias medidas. Nem à vez, já agora. São conhecidas as muitas infidelidades de J. P. Sartre. «Não se pode dormir com todas as mulheres do mundo, mas esse esforço deve ser feito», disse-o Jorge Amado. É longa a lista, e é contemporânea esta realidade. Há um autor das Publicações Dom Quixote que está sempre reunido de mulheres. Como um íman, vejo-o trocar copos e sorrisos. Numa entrevista de vida, António Lobo Antunes (outro autor Publicações Dom Quixote) disse a João Céu e Silva que não tinha tido assim tantas mulheres. O interlocutor, que se dispôs a reunir numa longa entrevista o vasto percurso biobibliográfico do autor, colocou uma nota para o leitor que confirma que, na verdade, foram muitas. Não é que de facto, para o vulgar humano, não tivessem sido muitas as mulheres que António Lobo Antunes teve. Por isso nem o escritor estava a mentir, nem o comentário do interlocutor era despropositado. Cada um de nós vê o mundo com o seu olhar e todos nós temos bagagem quando embarcamos. Por isso, e porque António Lobo Antunes não parece ter um problema com a aritmética, o que ali se assistiu foi a diferença de mundo entre um vulgar homem e um (grande) escritor. Se nos comovemos com o que escrevem, é porque o fazem de forma exacerbada e única. E se há autores que precisam de uma musa, na verdade o que eles estão a dizer é que precisam de materializar numa ideia o mundo todo. Todas as mulheres. Uma por uma: as belas, altas, magras, mas também as gordas, as feias, as desajeitadas.

 

São conhecidas as aventuras amorosas de Lobo Antunes, em que mulheres lhe dão o número de telefone em caligrafia delicada, esperando que sejam uma das eleitas. Algumas, ao que parece muitas, são-no. Não será por isso à toa que muitos convidados acabaram por ser expulsos do local onde o escritor escrevia. Estavam a mais. O autor precisava de amar. Só mais um pouco. Uma amiga do Senhor Palomar fez uma vez uma pergunta ao autor de Manual dos Inquisidores numa sessão pública. A pergunta perdeu-se no vozeirio e nos silêncios da sala. Mas Lobo Antunes não a esqueceu: a ela nem à pergunta. No final, disse-lhe que gostara da pergunta. Estiveram 30 minutos a falar, só os dois. Durante aquele período, a amiga confirma-me que ele passou o tempo todo a olhá-la. Foram apenas 30 minutos da sua vida, mas volta e meia conta-me a história. Again and again. Ela conta sempre isto sem se importar, como se o olhar de António elevasse, ou pelo menos não pesasse. Talvez seja isso.

 

Claro que existe sempre o outro lado, bem como o machismo latente em cada uma das frases que o Senhor Palomar escreveu até aqui, coisa que o narrador não quer ser acusado pela Senhora Palomar. Ela sabe que não é assim, bem certo, porque já o conhece o suficiente, mas nada como colocar os pontos nos i. Claro que o outro lado o comove (não preocupa). Nem mesmo uma mulher independente e livre como Simone Beauvoir era capaz de lidar, sem sofrer com essa situação, com os muitos amores do Nobel francês. E é claro que tudo isto que foi dito nos primeiros parágrafos desculpabiliza uma série de choros e tristezas. Houve vidas decepadas e rotinas destruídas, que acabaram na caixa de urgências. Houve quem nunca mais dali saísse. Mas isso dá-se apenas porque ainda não percebemos que escritor é um bicho. É um bicho com mais ventrículos e aurículas que o vulgar homem. Escritor acha que ali caberá, sempre, todo o mundo. E o mais provável é que caiba mesmo.



publicado por Senhor Palomar às 18:36
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7 comentários:
De acatar a 15 de Novembro de 2009 às 22:06
muito bem.


De c.a. a 16 de Novembro de 2009 às 01:40
E o amor das escritoras, é diferente?


De andreia am a 16 de Novembro de 2009 às 17:56
É igual. Mas a elas, os que falam "deles" com enlevo e os outros também, condenam-nas. E elas o que têm a fazer é borrifar-se e viver intensamente o que lhes der na real gana, que há-de chegar o dia em que isto muda. Mas só muda quando elas próprias deixarem de se condenar.


De c.a. a 17 de Novembro de 2009 às 00:39
Sabe, não me parece que o Senhor Palomar tenha escrito com enlevo sobre a forma de (des) amar dos escritores (ou, pelo menos, daqueles que cita) . O que me decepcionou - confesso - foi constatar que o Senhor Palomar parece confundir o «ter» ou «dormir» com muitas mulheres (ou seja, ter muito e variado sexo ao longo da vida) com o «amar sem meias medidas». Porque me parece que há escritores que «amaram sem meias medidas» uma única pessoa em toda a vida, e o primeiro que me veio à memória foi a célebre freira alentejana, Mariana Alcoforado . Por isso deixei a pergunta, na esperança de levar o Senhor Palomoar a repensar melhor a sua ideia. Ou será que ele não considera a freira um exemplo de escritor(a)? E nesse caso, quem pode ser designado por «escritor»?


De andreia am a 17 de Novembro de 2009 às 10:43
Concordo igualmente com o que diz. Mas nisto dos sentimentos fala-se sempre com os olhos (e não me refiro aos que nos permitem ver) com que encaramos a vida, ou o momento. E por isso estará sempre em mutação aquilo que pensamos e aquilo que dizemos em determinada altura. Tudo neste âmbito é demasiado subjectivo para que nos possamos decepcionar. É tão vasto o tema que qualquer generalização ficará aquém do que poderia ser dito e tudo é questionável. Para quê definir o que é um escritor se esses simplesmente o são e serão sempre ainda que jamais alguém os defina e cite como tal.


De Jonas a 17 de Novembro de 2009 às 14:20
Poderá a promiscuidado do Lobo Antunes caber na metaliteratura?

Hesito por reconhecer o esforço que ele dedica aos volteios da sua biografia, é um trabalho de linguagem, sem dúvida, de apuramento a realidade com as ferramentas da ficção, ora.

Por outro lado, não creio que a libido seja o motor atómico dos escritores, não de todos, e isto é menos do que óbvio. Aproveito até o exemplo da Mariana Alcoforado, eu li as cartas e descobri uma grande paixão pelo amor, o afecto asceta, esse romantismo exacerbado perfeitamente verosímil ou útil como ficção.
Teria a Soror Mariana mais ventrículos e aurículas do que as demais sorores?, ou demais mulheres e homens e geral?
Seria ela uma melhor amante? Seria ela uma amante mais atlética?

Só porque se descreve bem o amor e as suas transformações, significa isso que se é um melhor amador?

Os exercício de galanteio do Lobo Antunes podem fazer parte da construção da sua biografia, podem não ser pulsões sexuais.


De c.a. a 10 de Dezembro de 2009 às 00:01
«Sempre achei valer a pena observar as pessoas, imaginar-lhes vidas, fixá-las na memória, ignorando-as. Sempre achei não valer a pena mais nada», escreveu a Maria Ondina Braga, no «Estátua de Sal». Dito de outra maneira, os escritores - homens ou mulheres - não amam pessoas. Amam a escrita, regra geral a deles, às vezes, a dos outros também. São «bichos estranhos».


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