

O Senhor Palomar não se espanta que Caim seja um golpe de marketing do Nobel Português. Sim, a Bíblia é um manual de maus costumes, o Corão não pode ter sido ditado a Maomé, «Deus é cruel, invejoso, insuportável», diz Saramago. Pouco importa. Saramago tem direito a dizer o que achar por bem. Não por ser Nobel, mas porque Saramago merece ser tratado com o respeito com que falta aos milhares de pessoas que, tão só, acreditam.
O Senhor Palomar gosta de pessoas que acreditam. E como tal respeita quem abraça uma religião. Mesmo que não professe nenhuma. Saramago achará decerto que uma vida de crença é uma vida sem nexo. Ignora possivelmente que, para os crentes, a vida ganha aí sentido. Ignora, mas sabe-o. Portanto, se decide carregar na mesma tecla, é porque tem o feitio que se lhe conhece. Sim, venderá mais livros, mas não será por isso que fala no tom que o faz. Saramago venderia sempre o número de livros suficiente para suportar o estilo de vida que tem. Não precisava de mais esta bordoada. A LeYa Caminho, por outro lado, deve agradecer o gesto. O mais certo é que a tiragem inicial de 50 000 exemplares esgote rapidamente. Azar para o novo livro de Lobo Antunes, que saiu também por estes dias, e do qual ninguém fala
Com Caim, Saramago poderá ser, para algumas pessoas, ofensivo. O Senhor Palomar esclarece que o que ali se lê não o melindra, contudo, entende que tal possa suceder a muitos espíritos, conservadores ou não. Olho vivo para Israel, que é, diga-se, verdadeiramente trucidado por Saramago neste último livro.
Saramago, pelos olhos de Caim, mostra-nos de novo que estamos cegos. Retrata a expulsão de Adão e Eva do Éden, a desagregação da torre de Babel, a destruição de Sodoma, a construção da Arca de Noé, entre outros episódios do Antigo Testamento. A partir destas imagens, qual profeta, Saramago usa a mesma demagogia que tanto critica nas religiões para dizer que Deus não existe e que todos aqueles que seguem uma religião caem no absurdo de o fazer. É o estar com ele ou contra ele.
O livro, por outro lado, e o que mais deveria importar, é interessante. Começa bem, muito bem, prossegue mal como se mais uma viagem de um elefante fosse, e termina lindamente. Quanto às páginas eróticas de que falava a imprensa de hoje, o Senhor Palomar não deu por nada. Mas isto talvez se deva ao facto de andar a passar demasiado tempo, sozinho em frente à televisão, a ver canais pouco literários. E bem mais obscenos que as obras de Saramago.
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