
Edição Quetzal. Hoje nas livrarias.
Escritor é um bicho violento, já sabemos. É pouco dado a benevolências para com os seus leitores e se tiver de nos dar um estalo em cheio na cara, não hesita. Escritor é um bicho violento e não se compadece com meias medidas. Vive no extremo e é do limbo que faz o seu dinheiro para colocar o pão na mesa. Porque a verdade é que sendo eles verdadeiros abutres das circunstâncias , precisam de comer como os outros. Convém não esquecer isto, para que depois possamos todos ser um pouco mais compreensivos com algumas opções (ditas) mais fáceis.
30 anos de mau futebol, por João Pombeiro. O editor da LER já compilara as grandes frases políticas do pós-74. Agora fez o mesmo para o futebol. E é todo um banho de bola.
Na elaboração de um livro, o autor escreve, reescreve, elimina, faz escolhas. Perde horas para encontrar uma palavra, desgasta os dias preocupado com a solução para um enigma que o livro lhe trouxe. Não descansa enquanto não tem o problema resolvido, tenta ao máximo que o original seja claro para quem o lê. Desfaz-se em palavras para que o leitor perceba que aquela era a letra que faltava.
Mas quantas vezes, nós leitores, conseguimos vislumbrar este esforço que só trouxe angústia ao autor? Quantas vezes o editor se preocupa com o ofício do autor se ele acha que basta colocar uma cinta, ou um autocolante, que o leitor é tão estúpido que vai ser enganado?
Quantas vezes?
Parece que existem mais editores que editors. Parece que para alguns autores é mais confortável ter um publisher, que compram obras a autores sem as ler. O assistente editorial que se amanhe depois a pescar as ideias no meio da salganhada de frases e parvoíces. Afinal de contas é para isso que ele está. E o publisher, nestes casos, para que serve? E o autor será um verdadeiro autor? Por ligação à publicidade, poderia dizer-se que estes redactores são copys. Embora a designação mais correcta pareça ser paste.
Ou jogador de futebol. Um dos dois. Assim como assim, tudo anda à volta de levantar as pessoas do seu assento, onde estão confortavelmente acomodadas, e esperar pelo aplauso.
Mentir deve estar para os escritores mais ou menos da mesma forma que as bigornas de ferro fundido estão para os ferreiro-armadores. É sobre elas que moldam as ligas de metal, tal como é usando mentiras e o encapotamento que qualquer escritor que se preze avança. A verdade é um instrumento tão maleável quanto a liga de metal fundida que dá origem ao acessório que o ferreiro molda, e que mais tarde usamos para nossa inveja e necessidade. E gáudio, já agora.
Bolaño é um escritor de mão cheia e como tal acha que, com a verdade, pode fazer uso da ficção para nos atirar com a bigorna à cabeça, deixando-nos débeis para toda a vida.
Senhor Roberto Bolaño, deste lado o Senhor Palomar deixa-lhe um recado: o facto de estar morto não lhe dá o direito de nos vir assombrar.
Apresentação de "O Mar em Casablanca", de F.J.Viegas. Discursos preliminares a cargo de Mónica Marques e José Eduardo Agualusa.
Bad sex award shortlist pits Philip Roth against stiff competition.

Nocturno, de seu nome, a obra será publicada pela Sextante (uma das editoras preferidas do Senhor Palomar. O lançamento é já no dia 24 de Novembro, pelas 21h30 (Ler Devagar - LX Factory).
Cristina Carvalho estreou-se em 1989, com a obra “Até Já Não É Adeus. É filha do professor e poeta Rómulo de Carvalho (António Gedeão) e da escritora Natália Nunes. Publicou contos em várias revistas e jornais (Jornal de Letras, Revista Egoista, entre outros). A sua última incursão na ficção deu-se março deste ano com o romance “O Gato de Uppsala” (ver blogue), também na Sextante Editora.
BE pergunta a Silva Pereira quanto é que o Estado gasta em publicidade nos media.
Lista do Times. Curiosamente, nos 5 piores da década está O Código Da Vinci, de D. Brown (que também figura da primeira lista). Aqui, a escolha dos críticos daquele jornal.
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Pistas na Ñ. Como se todos fôssemos o Grande Irmão.

Recorde-se que esta editora já leva bastante adiantada a publicação da obra completa de RB.

Episódios revisitados por Ed Pilkington, no The Guardian.
Escritor é gente que não sabe amar sem meias medidas. Nem à vez, já agora. São conhecidas as muitas infidelidades de J. P. Sartre. «Não se pode dormir com todas as mulheres do mundo, mas esse esforço deve ser feito», disse-o Jorge Amado. É longa a lista, e é contemporânea esta realidade. Há um autor das Publicações Dom Quixote que está sempre reunido de mulheres. Como um íman, vejo-o trocar copos e sorrisos. Numa entrevista de vida, António Lobo Antunes (outro autor Publicações Dom Quixote) disse a João Céu e Silva que não tinha tido assim tantas mulheres. O interlocutor, que se dispôs a reunir numa longa entrevista o vasto percurso biobibliográfico do autor, colocou uma nota para o leitor que confirma que, na verdade, foram muitas. Não é que de facto, para o vulgar humano, não tivessem sido muitas as mulheres que António Lobo Antunes teve. Por isso nem o escritor estava a mentir, nem o comentário do interlocutor era despropositado. Cada um de nós vê o mundo com o seu olhar e todos nós temos bagagem quando embarcamos. Por isso, e porque António Lobo Antunes não parece ter um problema com a aritmética, o que ali se assistiu foi a diferença de mundo entre um vulgar homem e um (grande) escritor. Se nos comovemos com o que escrevem, é porque o fazem de forma exacerbada e única. E se há autores que precisam de uma musa, na verdade o que eles estão a dizer é que precisam de materializar numa ideia o mundo todo. Todas as mulheres. Uma por uma: as belas, altas, magras, mas também as gordas, as feias, as desajeitadas.
São conhecidas as aventuras amorosas de Lobo Antunes, em que mulheres lhe dão o número de telefone em caligrafia delicada, esperando que sejam uma das eleitas. Algumas, ao que parece muitas, são-no. Não será por isso à toa que muitos convidados acabaram por ser expulsos do local onde o escritor escrevia. Estavam a mais. O autor precisava de amar. Só mais um pouco. Uma amiga do Senhor Palomar fez uma vez uma pergunta ao autor de Manual dos Inquisidores numa sessão pública. A pergunta perdeu-se no vozeirio e nos silêncios da sala. Mas Lobo Antunes não a esqueceu: a ela nem à pergunta. No final, disse-lhe que gostara da pergunta. Estiveram 30 minutos a falar, só os dois. Durante aquele período, a amiga confirma-me que ele passou o tempo todo a olhá-la. Foram apenas 30 minutos da sua vida, mas volta e meia conta-me a história. Again and again. Ela conta sempre isto sem se importar, como se o olhar de António elevasse, ou pelo menos não pesasse. Talvez seja isso.
Claro que existe sempre o outro lado, bem como o machismo latente em cada uma das frases que o Senhor Palomar escreveu até aqui, coisa que o narrador não quer ser acusado pela Senhora Palomar. Ela sabe que não é assim, bem certo, porque já o conhece o suficiente, mas nada como colocar os pontos nos i. Claro que o outro lado o comove (não preocupa). Nem mesmo uma mulher independente e livre como Simone Beauvoir era capaz de lidar, sem sofrer com essa situação, com os muitos amores do Nobel francês. E é claro que tudo isto que foi dito nos primeiros parágrafos desculpabiliza uma série de choros e tristezas. Houve vidas decepadas e rotinas destruídas, que acabaram na caixa de urgências. Houve quem nunca mais dali saísse. Mas isso dá-se apenas porque ainda não percebemos que escritor é um bicho. É um bicho com mais ventrículos e aurículas que o vulgar homem. Escritor acha que ali caberá, sempre, todo o mundo. E o mais provável é que caiba mesmo.

Parabéns, Luís Naves. Um abraço.
O Senhor Palomar está longe. Tal como indicou, só muito espaçadamente pode vir à net. Hoje, deu-se um desses espaços. Ao fazer uma curta, e selecta, leitura pela blogosfera, reparou que Marodona voltou a referenciar o Senhor Palomar. O que o deixa muito preocupado.
O A Causa foi modificada merece ser lido. Mas o Senhor Palomar teme que tanto mono-tema leve a que os leitores fiéis e possíveis outros se afastem daquele blog. O que seria tremendamente injusto. Algo preocupado e desconcertado, o Senhor Palomar deixa um conselho ao Maradona: que siga a linha editorial do costume e deixe, de uma vez por todas, de se preocupar com o Senhor Palomar. Deseja-lhe ainda um bom domingo, dia do Senhor, e que pare de andar a cuscar o sitemeter dos outros. O Senhor Palomar lembra que também ele já passou por este escrutínio do Maradona. Dias difíceis, e de dúvida vivem-se por aqueles lados: o Maradona tem a solidariedade do Senhor Palomar.
O Senhor Palomar estará longe de computadores nos próximos dias e os acessos à net serão feitos apenas de forma muito espaçada. É pois natural que a actualização do blogue não seja a habitual. O Senhor Palomar espera que no seu regresso ainda mantenha algum leitor.
Obituário no Público.
- O Mundo Branco do Rapaz-Coelho, de Possidónio Cachapa. Regresso do autor de Materna Doçura, agora na Quetzal.
- E Então Vai Entender, de Claudio Magris. Primeiro livro do nobilizável na Quetzal.
- O Sítio das Coisas Selvagens, de Dave Eggers.
- Todas as Viúvas de Lisboa, de Alexandre Borges.
- A Estrela, de Vergílio Ferreira.
- O Livro do Homem, por João Bonifácio. Com ilustrações de Pedro Vieira.
- Trinta Anos de Mau Futebol, de João Pombeiro. Com ilustrações de Pedro Vieira.
- Salazar e os Milionários, de Pedro Castro.
O Twingly não funciona.
Edição da Sextante.
Mas o que ela merecia era todo um continente.
Ficamos todos muito mais descansados.
Renaudot (Quetzal) para Hubbert Haddad. Goncourt para Marie NDiaye.
Comemoram-se hoje 90 anos sobre o nascimento do autor de «Sinais do Fogo». 2009 está a ser profícuo em acontecimentos em redor deste autor: O Estado Português decidiu transladar o corpo de Sena dos EUA para Portugal, ainda este ano foi feita a doação do seu espólio à Biblioteca Nacional e em Junho deste ano a Guimarães Editores anunciou que iria reeditar toda a obra do autor (o primeiro livro sairá em Novembro).
Ler aqui o artigo de Fazenda Lourenço sobre Jorge de Sena.
O Senhor Palomar deixa ainda um pequeno texto extraído do primeiro volume de Conta-Corrente (entrada de 05 de Fevereiro de 1969), de Vergílio Ferreira, no qual este traça o perfil de um autor com o qual manteve, por vezes, uma relação de conflito: «Folheados Os Sonetos de Camões, de Jorge de Sena. Há dias ouvi-lhe uma conferência na Sociedade Nacional de Belas-Artes. Sena vive no «exílio» que escolheu. Havia pois grande expectativa. Mas o resultado ficou aquém. É uma figura singular, esta, no nosso meio cultural. Poeta, dramaturgo, ficcionista, crítico, erudito de várias erudições. E todavia Jorge de Sena não tem propriamente um «vioino de Ingres». O talento alargase-lhe por todos os sectores. Vai ser difícil arrumá-lo mais tarde. Porque todos os autores se ordenam em função de algumas ideias fundamentais, mesmo o disperso Pessoa. Jorge de Sena é múltiplo por natureza. Aliás, ele próprio parece detestar as «ideias gerais» sobre qualquer assunto.» (Vergílio Ferreira, Conta-Corrente (1969-1976), 3.ª Edição, Bertrand Editora, 1982, p.13).

«Saramago opõe a laicidade à cesura entre sagrado e profano. Nada contra. O óbice releva de inadequação discursiva: «As duas irmãs ficaram grávidas, mas caim, grande especialista em erecções e ejaculações como gostosamente o confirmaria lilith, sua primeira e até agora única amante [...] a coisa simplesmente não se lhe levanta, e se não se lhe levanta a coisa, então não poderá dar-se a penetração...» Não estamos em 1885, quando A Velhice do Padre Eterno, de Guerra Junqueiro, provocou tumultos de rua. Hoje, as peculiares idiossincrasias de Saramago não incomodam ninguém. Sobretudo porque o efeito “máquina do tempo” (Caim protagoniza episódios em épocas diferentes) anula o efeito de provocação.» Ler na íntegra aqui.
Atenção: este artigo do Times é essencial para todos. Mesmo para os que não gostam de comics.
Numa altura em que a Tinta-da-China publica um volume de entrevistas da Paris Review, vale a pena ler o artigo de Rushdie no Times, em que este explica por que razão aquelas entrevistas são essenciais.
«O reitor da Universidade de Évora, Jorge Araújo, garantiu hoje que, perante o actual modelo de financiamento do Ensino Superior, a instituição [Universidade de Évora] “não é economicamente sustentável” e depende, “em última instância”, da “atenção” do poder político.» A melhor parte da formação do Senhor Palomar deu-se a partir dali. E por isso o Senhor Palomar lamenta tudo o que possa estar colocar em causa a Universidade de Évora. Bela cidade: grande escola.
«Os editoriais, a partir de hoje, deixarão de ser assinados. Os editoriais expressarão o pensamento desta direcção e deste jornal sobre o mundo que procuramos descrever, compreender e analisar página a página. Não queremos doutrinar nem vender receitas. Queremos interrogar o mundo. Daremos expressão a todos os pontos de vista, mas afirmaremos os nossos. Os editoriais serão escritos pelo novo Gabinete Editorial, composto pela direcção e mais cinco jornalistas do PÚBLICO - Teresa de Sousa, Jorge Almeida Fernandes, Margarida Santos Lopes, Ricardo Garcia e Vítor Costa. Há 20 anos, quando nascemos, foi decidido que os editoriais seriam assinados com base em duas ideias: seriam mais acutilantes e comprometeriam apenas o seu autor. Hoje sabemos que essa ideia original se tornou utópica e que um editorial compromete todo o jornal - é a cara do jornal - e não pode, por isso, ser veículo da opinião de uma só pessoa. Acreditamos, também, que é possível escrever editoriais incisivos, com pontos de vista corajosos e provocadores, que questionem e mobilizem a sociedade. Os novos editoriais do PÚBLICO, são, portanto, textos de opinião do jornal como instituição. A mesma filosofia será aplicada à secção Sobe e Desce.» Ler na íntegra aqui.
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