As manifestações multiplicam-se. Ler os textos abaixo de dois dos principais bloggers portugueses:
- Eduardo Pitta: «Pode uma editora publicar texto ou imagem sem autorização do autor? Não pode. Enfim, talvez na Somália. Mas foi o que aconteceu, e o crime de usurpação de propriedade intelectual é capaz de ser público (passo a batata quente aos juristas). [...] Em que é que o Pedro Vieira tem menos direitos que a Paula Rego?»
- José Mário Silva: «O que a Tribuna da História fez tem um nome: roubo. Roubo descarado. Roubo sem vergonha. Roubo escandaloso. E tem que pagar por ele. Repito: o caso não se resolve apenas com o repúdio (espero que generalizado) da blogosfera e o eventual boicote dos leitores. Até pelos precedentes que abre, a infracção deve ser punida exemplarmente. E por isso sugiro que o Pedro, ou alguém por ele, leve – passe o quase pleonasmo – a Tribuna a Tribunal.»
Em homenagem ao dia internacional do orgasmo, uma muito breve dissertação sobre tamanho. Tive recentemente um blind date com o senhor Capote. Um revigorante Breakfast at Tiffany's, a bem da verdade. Assim como quem esbarra com o carrinho de cachorros quentes e, apesar de estar numa dieta interminável, não resiste a uma dentadinha na salsicha. É que, meus amigos, confesso que desconhecia por completo a salsichinha deste senhor, e numa época em que se nota uma crescente tendência para o tamanho despropositado, que, consequentemente, nos preenche abusivamente qualquer buraquinho de tempo, procuro avidamente os pequeninos que possa saborear em modo rapidinha, ou a sangue frio se preferirem, para arejar de tanto calhamaço. Expectativas superadas. E que luxo, que engenho, 120 páginas de puro prazer. E como mais vale tarde que nunca, anseio por nova cavalgada com o Senhor Capote.
Breakfaste at Tiffany´s (Boneca de Luxo), Truman Capote, Dom Quixote
Como já se terá percebido, o Senhor Robson nunca treinou o clube do coração do narrador deste blogue (só há lugar para um senhor nesta frase). Infelizmente, diga-se. Teria sido um prazer vê-lo de vermelho e branco, tal como era um prazer ouvi-lo quando vencia o Benfica. Quem conhece o Senhor Palomar sabe que este não diz isto de muitas pessoas que entram pela Luz adentro e saem com o caneco na mão. Mas com o Senhor Robson era diferente. Quanto mais pessoas como Bobby William Robson desaparecem, menos o Senhor Palomar gosta de futebol.
Ler o obituário intitulado "The heart and soul of English football" no The Guardian. Ler também alguns testemunhos dos seus pares. Se é que um número ímpar pode ter par.
A Tribuna da História publicou em livro uma ilustração de Pedro Vieira «sem que lhe tenham sido pagos quaisquer direitos, dado créditos ou sequer solicitado autorização», como escreve o Blogtailors. Ler aqui o texto de Pedro Vieira, que é talvez o único momento positivo desta triste história. É um belíssimo texto.
O Senhor Palomar, num post abaixo (entretanto corrigido), errou ao trocar o sexo à New Yorker, colocando-lhe o artigo definido masculino "o", no lugar do correspondente feminino "a". O (não "a", atenção) dactilógrafo, atento, chamou (e bem) a atenção do Senhor Palomar para o erro.
Tratou-se naturalmente de um lapso deste narrador, mas um justo reparo de um leitor. Aqui fica por isso mesmo o pedido de desculpas a todos os leitores e leitoras. Dactilógrafo incluído.
O Senhor Palomar pretende agradecer encarecidamente a todos aqueles que têm linkado para este blog, bem como incluí-lo na barra de ligações. Primeiro, o Senhor Palomar começou por agradecer de forma independente, mas depois, com as distracções do costume, perdeu o rumo ao barco. Mas porque o Senhor Palomar pode ser distraído (ou desorganizado) mas nunca ingrato, aqui ficam aqueles que encontraram espaço para referenciar este blog (e que este conseguiu "apanhar"). A todos os injustamente esquecidos, por ignorância ou incapacidade, as desculpas do Senhor Palomar:
Para enviar um e-mail, dando-nos conta que a literatura é um ofício perigoso. Ler na íntegra aqui o Discurso de Caracas, lido por Roberto Bolaño aquando da atribuição do prémio Rómulo Gallegos, em 1999, à obra Detectives Selvagens (Teorema).
Recorde-se que, em breve, a Quetzal Editores, a verdadeira remetente do e-mail, lançará o magestral 2666. A 26 de Setembro.
Pedro Adão e Silva escreveu um belíssimo texto sobre o original Palomar, de Italo Calvino, para referenciar esta vossa reprodução que, comovida, agradece.
Diga-se que o texto em questão está integrado no livro O Sal da Terra, editado pela Bertrand. E sim, Eduardo Pitta tem toneladas de razão: a capa em questão até poderá aproximar um certo tipo de leitores. Mas afasta muitos outros. Possivelmente aqueles que mais interessavam.
O anúncio de Arménio Vieira como vencedor do Prémio Camões 2009 surpreendeu quase tanta gente quanto o anúncio de Pinto Ribeiro para Ministro da Cultura (muitos pensaram que se trataria do homónimo programador cultural da Gulbenkian).
Mas como estas coisas dos prémios não são um concurso de popularidade (ou pelo menos não deveriam ser) é com agrado que o Senhor Palomar regista a publicação de uma obra deste poeta pela Nova Vega. O Senhor Palomar não conhece o poeta, admite que não se deixa levar pela maior parte dos prémios, mas o Camões respeita (pese embora alguns disparates cometidos, como no ano passado, quando o juri maltratou Ubaldo ao dizer que só olhara para o Brasil para entregar o prémio desse ano).
Enquanto escreve este post, o Senhor Palomar tem no horizonte as declarações de Lobo Antunes sobre a atribuição do Prémio Nobel da Literatura (ninguém contesta o Nobel da Química ou da Medicina, mas da Literatura toda a gente tem opinião), e, como tal, não belisca a seriedade e justeza da decisão. O que fará, isso sim, é comprar este O eleito do Sol, pela Nova Vega. Só para ter a certeza que a decisão foi correcta.
A editora já anunciou que a aposta neste autor é para continuar, e como tal publicará na próxima rentrée a edição do seu último livro de poesia, Mitografias.
O anagrama de Varsóvia, Richard Zimmler, LeYa Oceanos. Em Setembro.
Segundo comunicado da editora trata-se de, cita o Senhor Palomar, «um romance policial arrepiante e soberbamente escrito passado no gueto judaico de Varsóvia. Narrado por um homem que por todas as razões devia estar morto e que pode estar a mentir sobre a sua identidade…»
As editoras começam a preparar-se para celebrar o 20.º aniversário da queda do muro de Berlim, que é como quem diz, lançar uma série de obras à volta desta temática. Depois de a Bertrand ter anunciado que lançará O Mundo Perdido do Comunismo (criado a partir do documentário homónimo da BBC do mesmo autor - ver aqui), que reúne uma série de testemunhos de protagonistas da Alemanha soviética, é a Oceanos, chancela do Grupo LeYa dirigida por Maria Piedade Ferreira, que vem apresentar o título A queda do muro, de Olivier Guez e Jean-Marc Gonin. A obra dos dois jornalistas franceses relata os dias que antecederam a queda do Muro e o dia em que finalmente este ruiu.
«Um ponto de exclamação mal colocado numa frase é uma deselegância indesculpável. Funciona como uma espécie de arroto verbal. O texto até pode estar “bem escrito” (ah, toda a vacuidade do mundo numa expressão barata), o artista até pode ser um bom artista, essas coisas todas, mas se coloca um ponto de exclamação onde não deve ser colocado estraga tudo (tudinho mesmo). Numa sala de decoração impecável é o dalmata de louça. O ponto de exclamação tem o efeito de uma bomba terrorista. A festa pode estar a correr bem, com um ambiente agradavelzito (apesar da música tenuemente new age), mas escusado era alguém ter feito rebentar o quarteirão todo com um explosivo colocado na marquise. É isso o ponto de exclamação.»
Texto de Nuno Costa Santos, no (infelizmente) extinto Sinusite Crónica.
O The Guardian publica na sua edição online um slideshow que apresenta os vários candidatos ao prémio. Summertime, de J.M. Coetzee (que já ganhou por duas vezes o prémio), é o favorita. Aqui.
«Nesta novela, Miguel Real quis mostrar como funciona a cabeça de alguém à beira de cumprir o seu sonho de grandeza e poder, alguém que toda a vida esperou o momento de exorcizar o «buraco de infortúnio» que foi o seu passado. Mas, sejamos claros, este engenhoso reductio ad absurdum é sobretudo o veículo para uma crítica feroz às políticas educativas do actual governo.» Ler na íntegra aqui.
Mia Couto andou a calcorrear o país para promover o seu Jesusalém. Ricardo Duarte, do JL, cobriu os passos do escritor e o resultado pode ser lido hoje no JL (e visto no trailer abaixo, que tem edição de Joana Beleza, da Rádio Renascença).
O Senhor Palomar, naturalmente, ainda não leu a peça em questão. Mas sendo Ricardo Duarte um dos mais auspiciosos esperanças do jornalismo cultural português, aguarda o Senhor Palomar, com ansiedade, a chegada do jornal pelo correio. Ricardo Duarte é culto, rápido de raciocínio e escreve bem. Mas, acima de tudo, é um leitor. E isso faz toda a diferença. [Via Ciberescritas]
«Ora, acontece que, além de concordar 100% com o texto de Mexia, convém dizer que Bonifácio é um magnífico crítico e uma das pessoas que melhor escreve no Público. Só isso já basta. Nuno Pacheco, não tens razão.»
A propósito deste caso, as reacções começam a espalhar-se na blogosfera. É desta forma patética que, em segundos, se destroem anos de eventual credibilidade adquirida. Aqui, pode ler-se o comunicado que Os Belenenses emitiram.
Pedro Vieira, Irmão Lúcia: «a liberdade anda a passar por aqui ou de quando o sub-director Nuno Pacheco mostra aos seus meninos como se faz opinião e relembra que quem se mete com a Cruz de Cristo, com o futebol e com o Montez leva. Lá dizia o outro.»
Luís, As Aranhas: «Se os jornais acham que se vão safar assim, colando-se ao rumor geral, reproduzindo as verdades feitas pela publicidade, trocando textos idiossincráticos (mas sempre potencialmente "ofensivos", porque há sempre alguém para ficar "ofendido" com as coisas mais inacreditáveis) por textos neutros escritos por autómatos, é lá com eles, que devem gastar fortunas em estudos de imagem e marketing. Mas se o futuro é isto, jornais limpos de conflito, de contraditório, de vozes minoritárias ou mesmo solitárias, confortavelmente plasmados na paisagem, eh pá, então mais vale acabarem já. É que não precisamos disso para nada, e mais vale ir inventando outra coisa, de preferência que envolva menos dinheiro.»
Blogue Grandes Sons: «Na semana que passou, um jornalista do Público teve a ousadia de escrever, numa crítica a um concerto do Super Bock Super Rock, que o estádio do Restelo costuma estar às moscas. A direcção do Belenenses escreveu uma carta ao Público a chamar boi ao jornalista e exigiu um pedido de desculpas — que aliás obteve. O mesmo jornal que, no caso das caricaturas de Maomé, considerou que as desculpas eram injustificadas, pede desculpa ao Belenenses por uma crítica musical. Américo Thomaz, esteja onde estiver, repousará com certeza satisfeito.»
Se o Público tinha estado bem ao publicar a crónica de Alexandra Lucas Coelho de há umas semanas, na qual, esta, no seu espaço de opinião, tecia considerações sobre outra colaboradora do jornal, bem como da possibilidade de não se saber se o Público saíria no dia seguinte, agora, infelizmente, a mesma redacção (entenda-se direcção editorial) veio desautorizar aquilo que é a visão do crítico e que só a ele deveria vincular. Como o crítico não incita à violência, nem induz a comportamentos que poderíamos classificar de negativos, não se entende. Simplesmente não se entende.
Façam o favor de seguir o texto de Pedro Mexia no Bibliotecário de Babel, a propósito de uma crítica de João Bonifácio a um concerto dos The Killers. Aparentemente, a direcção do clube onde decorreu o concerto não gostou de um comentário final do crítico e protestou. O Público, no lugar de defender o direito à opinião de João Bonifácio (ligado a este jornal há muitos anos), bem como da sua própria independência editorial, pediu desculpa pela crítica.
É nesta fase que o Senhor Palomar também pede desculpa por ter comprado tantas vezes o jornal Público e com isso pagar salários às mesmas pessoas que não percebem a diferença entre um texto que classificamos como crítica e uma notícia.
Pedro Vieira respondeu ao desafio e criou a imagem que faltava para dar corpo a esta ideia já amplamente debatida na blogosfera. Inspirado pela trilogia de Larsson, criou aquilo a que chamou de "the girl with the forbidding tattoo". O Senhor Palomar gosta, muito, e como tal, passará a ostentar este mesmo símbolo na barra lateral do blogue. O Senhor Palomar espera que outros blogues sigam o exemplo.
Já foi anunciada. Para conferir aqui. Como explica José Mário Silva, «quatro estão já editados em Portugal. Dois na Dom Quixote: J.M. Coetzee, Prémio Nobel em 2003 e duplo vencedor do Booker, em 1983 e 1999 [...]; e Colm Tóibín. Uma na Sextante: A.S. Byatt. E outra na Bizâncio: Sarah Waters».
Listagem completa:
- The Children’s Book, de A.S. Byatt (Chatto and Windus)
- Summertime, de J.M. Coetzee (Harvill Secker) - The Quickening Maze, de Adam Foulds (Jonathan Cape) - How to paint a dead man, de Sarah Hall (Faber and Faber) - The Wilderness, de Samantha Harvey (Jonathan Cape) - Me Cheeta, de James Lever (Fourth Estate) - Wolf Hall, de Hilary Manter (Fourth Estate) - The Glass Room, de Simon Mawer (Little, Brown) - Not Untrue & Not Unkind, de Ed O’Loughlin (Penguin) - Heliopolis, de James Scudamore (Harvill Secker) - Brooklyn, de Colm Tóibín (Viking) - Love and Summer, de William Trevor (Viking) - The Little Stranger, de Sarah Waters (Virago)
José Mário Silva subscreve a tese de eliminação dos pontos de exclamação e acrescenta-lhe mais duas achas para a fogueira: a) relembra um (belíssimo) texto de Maio de 2007 de Pedro Mexia que já defendia esta posição; b) complementa a sua crítica (2 estrelas) ao livro "No Teu deserto", de Miguel Sousa Tavares, publicada no último Actual. E notem que o post de José Mário Silva merece mesmo ser lido. O Senhor Palomar sabe que a afirmação pode parecer um pleonasmo, mas é sempre conveniente avisar os mais distraídos.
«A trove of letters from Gustave Flaubert discovered in the attic of a Home Counties farmhouse reveals a softer side to the famously cynical author of Madame Bovary.»
«A fluência da escrita nunca é perturbada pelas inúmeras e oportunas notas de rodapé, que tanto dizem respeito a T. S. Eliot e Fernando Pessoa como a bandas de rock e sufistas australianos para mim absolutamente desconhecidos. Um verdadeiro melting pot que vai de Marx a Ruy Castro. E não, não são artiguinhos colados. É uma colecção de textos coerentes, com boas reproduções fotográficas, que merecia uma capa, como direi?, menos light.» Ler na íntegra aqui.
As palavras são de José António Abreu. Ler na íntegra aqui.
O Senhor Palomar deseja deixar claro que fica satisfeito por ser considerado a sensação da blogosfera dos últimos dias, seja por inclusão ou exclusão dos dois blogues que se perfilaram para discutir o que comummente se designa de esquerda e de direita. Na verdade, estas plataformas apenas discutem o maior partido português, o centrão, mas para mais fácil compreensão, aceitem-se os ditos conceitos. Com esta afirmação, o Senhor Palomar não pretende passar a ideia de que é apolítico e vê até com bons olhos a chegada destes espaços. Contudo, o Senhor Palomar recusa-se a embarcar no diálogo esquerda / direita e sempre que alguém o acusa de não tomar posição por uma das correntes, recorda-se do episódio em que Vergílio Ferreira foi acusado de ser apolítico:
«Hoje uma moça do liceu trouxe-me Rápida, a Sombra para autografar. Disse-me: — Gosto muito dos seus livros. Mas colegas meus, que diziam que o Vergílio Ferreira era um grande escritor, hoje dizem que não presta. — Ah, sim? — Dizem que o Sr. Doutor é apolítico. — Não sou apolítico. O que não sou é comunista. — Ou isso.»
In Conta-Corrente 1 (1969-1976), Bertrand, 3.ª edição. Entrada do dia 21.06.1979
Chega de Dan Brown, sentencia Robert McCrum. Há que encontrar os autores inovadores, os experimentalistas. Ou dito de outra forma, aqueles que já estão a escrever para a geração futura: « In books, the global marketplace seems to have crushed the spirit of innovation, and squeezed the life blood out of literary experimentation. Who are the avant-garde writers today who have retained their integrity as artists to shun the mainstream, but continue to produce new work? It must be a pretty short list, and, with the exception of a few poets, its constituents are almost totally invisible.» No The Guardian.
O senhor Palomar vem por este meio desejar um dia especial à autora que pôs os portugueses a sambar (e os brasileiros a entoar o fado). Faz hoje anos, mas o senhor Palomar não diz quantos.
PS: Não deixem de clicar no play da secção Banda Sonora (barra lateral). Os clássicos nunca ficam fora de moda. Já se quiserem ler o artigo acima, enquanto ouvem o hino nacional norte-americano cantado pelo Sinatra, é favor clicar aqui.
«Uma história de imigrantes e das consequências do fukú (maldição) que não poupa ninguém, nem o poderoso clã Kennedy. Por exemplo: o avião de John-John despenhou-se a caminho de Martha’s Vineyard porque a cozinheira era dominicana e estava a cozinhar chicharrón de pollo, o seu (dele) prato favorito. Mas «o fukú é sempre o primeiro a comer, e come sozinho.»
Não se julgue, porém, que Díaz aposta no realismo mágico. Muito pelo contrário. A sua escrita é a de quem reflecte com acrimónia sobre a ditadura de Trujillo, da qual escapou a tempo (era uma criança). Alguém com os pés bem assentes na terra. De tal modo que, acerca da invasão da República Dominicana, perpetrada pela administração Lyndon B. Johnson em Maio de 1965, comenta: «Santo Domingo foi o Iraque antes de o Iraque ter sido o Iraque.» Um episódio entre vários.» Ler na íntegra aqui o texto de Eduardo Pitta (contém spoilers).
É um livro notável. Está na lista (em construção) do Senhor Palomar para livro de ficção do ano.
«O ministro da Cultura, José António Pinto Ribeiro, disse hoje que a polémica à volta do espectáculo satírico no qual o encenador Ricardo Pais foi criticado mostra que “não avançámos muito no domínio cultural” nos últimos 100 anos.» Ler no Público, por gentileza.
É isso que Tiago Moreira Ramalho, d'"O Afilhado" e do "Corta-fitas" invoca: «fiquei fã por dois motivos: porque o blogue é extraordinário e porque a lata é notável. Cada título ou post é um gentil pedido, ou um descarado cravanço de qualquer coisa. Gosto ainda mais do Senhor Polomar porque a mim não me pode cravar grande coisa. É sim como que uma relação de dar sem receber. Ou, falando deste lado, de receber sem dar nada em troca.»
Com tanto mimo e atenção, o Senhor Palomar até fica a pensar que vale a pena continuar por aqui. Volte sempre, Tiago. É um prazer. Um abraço.
Em pouco mais de 10 horas, o Senhor Palomar recebeu diversos e-mails e comentários de apoio ao apelo para que se elimine definitivamente essa praga nefasta chamada ponto de exclamação.
Francisco José Viegas propôs a criação de um «banner» para «Blogs livres de pontos de exclamação na caixa de comentários e já dissertou sobre o assunto no seu blogue: «Quanto ao ponto de exclamação, o abuso na sua utilização apenas prolonga a histeria do autor, a gritaria, e muitas vezes a sem-razão de um texto, para não mencionar a agressividade ou o gosto português pela indignaçãozinha [...] O ponto de exclamação é um excesso de ruído que não acorda ninguém, uma espécie de martelo pneumático colocado no final de uma frase.»
Diga-se que FJV, além da erradicação do ponto de exclamação, propõe o mesmo tratamento para as reticências. O Senhor Palomar subscreve também esta posição, apesar de admitir que, em situações de maior cansaço, também as utiliza.
Cprince e AnaMar, pelo que dão a entender, subscreverão a petição, caso esta venha a existir.
Como o Senhor Palomar ainda não leu a obra, reproduz apenas a apresentação feita pela editora: «Este volume reúne alguns textos de reflexão, escritos entre 1799 e 1811, de natureza estética, que denotam uma enigmática abordagem das questões metafísicas discutidas pelos grandes filósofos da época.» Kleist, esse, dispensa apresentações.
leio o seu post e não posso deixar de lamentar que, nem em eventos sociais (quando deveria estar mais preocupada em perceber se a barba perfeitinha de Mia Couto é mesmo dele), a discussão «quem é o idiota do Palomar?» a largue. Isso sim, deve ser um stress.
O Senhor Palomar, já aqui o disse – pelo que não se irá repetir, não está habituado a tanto protagonismo. Contudo, não pode deixar de assinalar, e lamentar mais uma vez no mesmo post, que na mesma casa onde coabitam tantos gigantes da literatura, se esteja a discutir um Palomar que não seja o de Italo Calvino.
Grato pela sua solidariedade, ajoelho-me.
Palomar.
PS: O Senhor Palomar gostaria de deixar claro, em resposta ao segundo comentário do seu post, que não é «o filho do dono do quiosque que fica à saída do metro das Picoas.»
Só por uma questão de dúvida é que o Senhor Palomar se permite usar um ponto de exclamação.
Porque não é de bom tom escrever a vermelho (há coisas que ficam da escola primária), falar alto (outras de boa educação), ou usar maiúsculas numa conversa de chat (neste caso, porque simplesmente alguém disse assim, já que a linguagem cibernética ainda não tem idade para ter maneiras), o Senhor Palomar gostaria de decretar o fim dos pontos de exclamação. Se vamos a tempo de mudar a ortografia, porque não erradicar um sinal que só nos faz lembrar que temos cordas vocais, pulmões, e que somos livres de os usar?
Toda a gente sabe que a primeira coisa a fazer para alguém nos ouvir é falar num tom baixo, quase sussurrante. Imediatamente, a outra pessoa chega-se mais, aproxima o ouvido do nosso discurso e dispõe-se a escutar com mais atenção. O ponto de exclamação tem a sua graça nos românticos e nos realistas do século XIX (Ainda o apanhamos!), mas numa altura em que o ruído tomou conta dos nossos dias (os carros fazem demasiado barulho, os comboios também, os computadores não param de murmurar, a impressora passa o tempo a cuspir papel e a televisão não se desliga nem à lei da bala) um pouco de silêncio na literatura é necessário e deve ser valorizado.
O Senhor Palomar não gosta de autores que abusam do ponto de exclamação para mostrar uma tirada inflamada. Não só porque aprecia o discurso em tom sereno, como porque considera que não raramente esse tipo de caminho estilístico esconde uma profunda incapacidade de alguém se fazer explicar. Mas pior que tudo isso é a interpretação que se rouba ao leitor: após um grito nos nossos ouvidos, ninguém mais consegue raciocinar, isso é um dado adquirido.
Se não lhe faltasse o jeito e a disponibilidade, o Senhor Palomar escreveria o manifesto e posteriormente pediria assinaturas em frente ao Metro. Erradicar o ponto de exclamação será um sinal de evolução civilizacional tão grande como não cuspir para o chão ou dizer palavrões em voz alta (a menos que se esteja no Porto e aí os palavrões são bem-vindos e devem ser não só respeitados, como estimulados – ver a semiótica da coisa aqui).
O ponto de interrogação, com a sua tendência para nos abrir os olhos com agulhas, tem tanto de delicado como ver o ex-ministro Manuel Pinho fazer corninhos no Parlamento. Lembrem-se disto da próxima vez que a mão vos fuja para a histeria.
"Jesusalém", de Mia Couto, no Brasil, chama-se "Antes de Nascer o Mundo". Trata-se de uma tentativa de não confundir a obra com o "Jerusalém" de Gonçalo M. Tavares, como defende Eduardo Pitta, ou pressões para que o título não ofendesse o povo brasileiro (viva!)?
«O principal mérito de JLBG, na arriscada deambulação por uma paisagem emocional instável, é não ceder um milímetro que seja ao sentimentalismo. Em vez de pathos, um desalento que nos chega através de elipses bem trabalhadas e da sintaxe precária, sempre à beira de esboroar-se. A atenção concentra-se nos pormenores: o fato «para levar no esquife» pousado sobre a cama; a barba que continuou a crescer depois da morte; recordações felizes da intimidade (o filho, de joelhos, cortando as unhas dos pés ao pai); a SMS enviada para um telemóvel agora sem préstimo (porque nem sequer vale a pena ligar para Deus); o antidepressivo que se toma como uma «hóstia alegre», uma «unidose de euforia».
Excerto da entrevista (obrigatória):«As leis do direito de autor têm como objectivo incentivar a inovação. Assim sendo, decorre mecanicamente da lei que um país importador de informação deveria ter condições mais favoráveis de acesso. Mas os países ocidentais são hipócritas, e os tratados internacionais foram escritos em seu favor. Felizmente, graças ao escândalo da SIDA, a atitude tem, pelo menos em parte mudado. Obviamente que os países pobre devem ter acesso em condições aceitáveis a medicamentos que salvam as vidas dos seus cidadãos. Portanto, ‘condições favoráveis’, nada que tenha a ver com cópias piratas para serem vendidas no mercado de Pequim.»
O Senhor Palomar recebeu mais um mail simpático dos Booktailors. Da última vez foi para anunciar a sua revista, desta faziam publicidade a um curso que deixou o Senhor Palomar entusiasmado e que talvez venha a frequentar enquanto aluno. Trata-se do curso de Jornalismo Literário, conduzido pelo grande repórter Paulo Moura. São 24 horas, com início a 26 de Outubro, e a informação está toda aqui.
Como este post de Carla Maia de Almeida: «O Senhor Palomar desfaz aqui uma possibilidade que também já me tinha passado pela cabeça. O Senhor Palomar, sendo um conservador e gentil-homem (se não por nascimento, por filiação e herança literária), nunca iria mentir sobre algo tão importante. A Senhora Palomar também não, embora por amor se façam coisas impensáveis. Como trocar o Rick Blaine pelo Victor Laszlo. Qual deles preferia ser o Senhor Palomar, isso também eu gostava de saber.»
Quando muito, um barão trepador. E sim, mais do que a blogosfera fervilhar pela identidade do Senhor Palomar, tudo isto se deve a estarmos em pleno fogo da silly season.
O Senhor Palomar, que não está habituado a estar na mira de focos de luz (sempre fugiu das objectivas das máquinas fotográficas e sempre se recusou a sequer pousar em grupo), está a estranhar a atenção que lhe estão a dar. Sobretudo em Julho - mês de férias, quando o país está a banhos e as praias estão mais lotadas que o mercado da Ribeira num sábado de manhã - sítio simpático, diga-se, onde se misturam todo o tipo de linguarejos e texturas, pese embora não tão populado quanto as livrarias, feitas feiras do livro (com o devido respeito pelas livrarias), que se mudam para o litoral, expropriando escolas primárias, mercados abandonados e ginásios à espera de Setembro. É o livro a um euro, a dois euros, promoção promoçãozinha, para ocupar os tempos livres com o livro que o pai se esqueceu de levar, pois pensou que o 24 horas seria suficiente para as muitas horas que passa a ficar mais vermelho que um adepto domingueiro do clube de Carnide. Pelo meio a criança quer estender-se ao sol, põe creme protector, faz castelos de areia, chapinha na água e dá um mergulho para o qual não pediu autorização. O pai volta a pôr o creme que a água dissolveu, a mãe a desapertar a fita do biquini, pois quer um bronze digno das revistas que compra na ida para o areal. É o gelado, é a bola de Berlim, é o livro que cai à água e fica com as páginas estragadas – mas não faz mal, foi só um euro, dois euros (promoção promoçãozinha), problema é a gasolina que não pára de aumentar (quase trezentos paus) e os restaurantes que têm a cerveja que se quer fria, à temperatura ambiente. É hora de deixar a praia e arruma-se no mesmo saco o livro com os cremes, com o chapéu da criança, as fraldas sujas e o maço de tabaco vazio. Vai tudo lá para dentro, o 24 horas é despejado no caixote do lixo (azul, claro, que o verde é para o vidro, o vermelho para o plástico e o amarelo para a lata de coca-cola que entretanto a criança pediu, e não bebeu, porque o vendedor não tinha palhinha). O livro sobreviverá àquela tarde, possivelmente àquelas férias, mas chegará a casa, juntamente com as crianças e a areia que se acumulou nos tapetes do carro, sem que mais ninguém lhe dê atenção. Não irá parar ao saco azul, pois em Portugal ninguém deita livros fora (o português pode ter dezenas de livros ainda envoltos em plástico que nunca irá ler, mas deitá-los fora é que nunca), contudo, não voltará a ser reaberto. O livro morrerá na estante, ninguém mais se vai lembrar dele. Mas daqui a uns tempos, quando mudarem de casa talvez aquele casal se lembre daquele livro. Não daquele livro especificamente – mas das férias que passaram juntos. E vendo assim as coisas, no fundo, talvez aquele livro até seja mesmo importante, pois acaba por cumprir o propósito e o objectivo final de qualquer livro (pelo menos num mundo ideal): servir de música de fundo e contexto do que mais importa.